‘Tudo está estreitamente interligado no mundo’, em nossa Casa Comum, o Planeta Terra.

Por Juacy da Silva*
Ao publicar a Encíclica Laudato Si, em Maio de 2015, o Papa Francisco, um verdadeiro apóstolo da Ecologia Integral, enfatizava que “Tudo está estreitamente interligado no mundo”, em nossa Casa Comum, o Planeta Terra.
Neste final de semana celebramos dois momentos significativos que é o DIA INTERNACIONAL DAS FLORESTAS, criado por Resolução da Assembleia Geral da ONU em 28 de Novembro de 2013, e celebrado anualmente, desde então em 21 de Março, com o objetivo despertar a consciência das pessoas e podermos refletir sobre a importância das florestas no equilíbrio socioambiental, principalmente em relação ao clima e, também, a estreita relação que existe entre as florestas e a questão da água, duas dimensões fundamentais para o bem estar e a qualidade de vida das atuais e futuras gerações.
Sem florestas os rios secam, as nascentes morrem, as pessoas e animais não sobrevivem e, o pior, o regime de chuvas é alterado, provocando secas intensas em alguns lugares e chuvas torrenciais em outros, ou seja, o equilíbrio ambiental cede lugar aos desastres “naturais”, com impactos devastadores como temos observado com maior frequência década após década, ano após ano no Brasil e em tantos outros países.
As árvores e as florestas desempenham um grande papel também como mecanismo de sequestro dos gases de efeito estufa que sao produzidos por diversos fatores, como a queima de combustíveis fósseis, estocando no solo e subsolo esses gases.
Com a destruição das florestas seja pelo desmatamento ou por queimadas, inclusive as de natureza criminosa, além de perderem esta capacidade/função de sequestrar os gases de efeitos estufa, também bilhões de toneladas desses gases que foram sequestrados e “armazenados” em baixo das florestas são liberados, contribuindo mais ainda para o aquecimento global e as temíveis mudanças climáticas.
Por isso é que o Brasil, apesar de ter uma matriz energética considerada razoavelmente limpa, pelo uso de fonte hídrica, devido à destruição de suas florestas, principalmente dos biomas Mata Atlântica, Cerrado, Pantanal, Caatinga e mais ainda a Amazônia, ocupa um lugar de destaque nas emissões de gases de efeito estufa.
No Brasil, ao longo dos últimos 40 anos, entre 1985 e 2025,, foram desmatados/destruídos mais de 120 milhões de hectares de florestas nativas, demorou e ainda esta demorando muito para que nossos governantes, nossos empresários, principalmente do setor agropecuário percebessem que o desmatamento, as queimadas e a degradação dos solos, erosão têm um impacto profundo não apenas na economia mas também no equilíbrio ambiental e na saúde humana.
De acordo com matéria divulgada pela Agência Brasil, utilizando dados de diversas fontes, inclusive do MapBiomas, em 05 de Julho de 2024, a estimativa em relação ao tamanho das áreas degradadas em nosso pais até aquele ano variava entre 60 milhões de hectares e 135 milhões de hectares, ou seja, uma média de aproximadamente 100 milhões de hectares de áreas outrora ocupadas por florestas e que atualmente não tem mais fertilidade e causam impactos extremamente negativos tanto ao meio ambiente quanto à economia nacional.
Outras fontes destacam que o tamanho das áreas de florestas que hoje são terras degradadas podem ser superior a 140 milhões de hectares, área maior do que a ocupada tanto por agricultura quanto por pastagens.
O desmatamento, queimadas, áreas degradas causam um grande impacto não apenas no Brasil, mas na quase totalidade dos países, principalmente aqueles que tem florestas tropicais, como a Amazônia, as florestas do Congo e também de diversos países asiáticos.
Nas décadas de 1980 até o ano 2000, a média anual de destruição das florestas ao redor do mundo era de 17,6 milhões de hectares, ou seja, em 20 anos o mundo “perdeu” em torno de 352 milhões de florestas nativas.
Mesmo que este processo de destruição tenha sido “reduzido bastante”, o destruição anual das florestas mundiais entre 2000 e 2015 foi de 11 milhões de hectares, “caindo” para 10,9 milhões de hectares entre 2025 e 2025. Isto significa que nos últimos 25 anos mais de 273 milhões de hectares foram desmatados mundo afora.
O impacto deste processo de destruição de florestas tem afetado todos os países, tanto no aspecto da degradação dos solos, na destruição das nascentes, na evapotranspiração das florestas que alimentam os chamados “rios voadores” e no regime de chuvas como já mencionamos, ou seja, sem florestas as fontes de água doce e inclusive as águas subterrêneas como os aquíferos são afetados drasticamente contribuindo para a crise hídrica já presente em mais de uma centena de países, inclusive no Brasil que tanto se ufana de ter a “maior reserva” de água doce do planeta, mas que pouco tem feito para reduzir os impactos da crise hídrica nas regiões mais populosas do país, como as regiões metropolitanas de São Paulo e outras mais, que já enfrentam sérios problemas de abastecimento urbano.
De forma semelhante a questão da água ou das águas, tem sido objeto de reflexão, debate e preocupação desde a realização da 1ª Conferência Mundial do Meio Ambiente e Desenvolvimento, realizada em Estocolmo em 1972.
Todavia, só na Conferência do Meio Ambiente e Desenvolvimento realizada no Rio de Janeiro em 1992, a chamada ECO 92, quando foi aprovada a Carta da Terra é que, por Resolução da ONU foi criado o Dia Mundial da Água, a ser celebrado anualmente em 22 de Março. A primeira celebração ocorreu em 1993 e, desde então a cada ano um tema é escolhido para orientar essas celebrações.
Em 2025 o tema foi “Preservação das geleiras” e neste ano de 2026 o Tema é “Água e Gênero”, com destaque para a luta por Justiça climática e justiça de gênero, tendo em vista o papel da mulher em relação `a questão da água, por ser a mulher quem mais de perto assume os cuidados com a moradia.
Tendo em vista tanto o desmatamento quando ‘as queimadas e’ a degradação dos solos que afetam profundamente a questão da água, ainda temos mais outro fator que também afeta tanto os sistemas de abastecimento quanto a qualidade da água que é o acelerado processo de urbanização, que aumenta o volume de resíduos sólidos/lixo e a falta/precariedade do sistema de esgotamento sanitário, contribuindo para a degradação e qualidade da água a ser utilizada no abastecimento urbano.
Quando refletimos sobre a questão da água não podemos deixar de mencionar também o impacto causado pelos agrotóxicos, pelo mercúrio e pelos rejeitos de garimpos ilegais e mineração em todos os biomas, principalmente no Pantanal, no Cerrado e na Amazônia, afetando a qualidade de todas as fontes de água.
Apesar do crescimento também acelerado da economia mundial (PIB) ao longo dos últimos 50 anos, no mundo atualmente mais de 2,1 bilhões de pessoas (25% da população mundial) não tinham acesso a água potável e mais de 3,4 bilhões de pessoas não tinham acesso a saneamento básico (Fonte Agência France Presse, 26 Agosto 2025).
Em alguns países da África, da América Latina e na Ásia mais de 50% da população desses países não tem acesso à água potável e mais de 90% não tem acesso ao saneamento básico, afetando profundamente a qualidade de vida dessas populações.
Mesmo o Brasil, que não é um país pobre, estando entre as 8, 10 ou 12 maiores economias do mundo, mas cujos governantes tem considerado moradia, água, saneamento básico e meio ambiente (florestas, por exemplo) apenas como mercadorias, sujeitos apenas as leis do mercado e não como direitos humanos fundamentais à dignidade das pessoas, também ostenta índices vergonhosos nesses aspectos.
Conforme matéria amplamente divulgada nesta semana (18 março de 2026), quase 90 milhões de brasileiros não possuem acesso a redes de coleta de esgoto. Isso representa mais de 40% da população. O dado faz parte do Ranking do Saneamento 2026, elaborado pelo Instituto Trata Brasil.
Cabe ressaltar que percentualmente esses índices são muito mais precários nas regiões Norte e Nordeste, com destaque para as cidades maiores, o que nos permite deduzir que a situação nas demais cidades (menores) e na área rural o Brasil ostente índices e indicadores semelhantes a diversos países extremamente pobres da América Latina, Ásia e África.
Em relação à água tratada, potável e de qualidade a situação no Brasil ainda deixa muito a desejar, tendo em vista que mais 32 milhões de pessoas continuam sem acesso à água tratada no meio urbano e dificilmente este “déficit” será solucionado a curto e médio prazo, tendo em vista, tanto o crescimento das cidades quanto o uso da água para atividades econômicas rurais e urbanas pelos respectivos setores econômicos/produtivos que demandam muito mais água do que o abastecimento para fins de consumo humano/familiar.
A falta de acesso a água potável, tratada tem causado a morte 1,4 milhão de pessoas todos os anos, ao redor do mundo, ou seja, desde a criação do Dia Mundial da Água em 1992, em torno de 35 milhões de pessoas já morreram de diarreia, cólera, febre tifoide e outras doenças relacionadas com a questão da água, tragédia muito maior e muito pior do que a recente pandemia de CONVID 19, que tanto sofrimento e vidas ceifou.
De forma semelhante também o impacto da falta de saneamento na vida e na saúde das pessoas tem contribuído para milhões de mortes desnecessárias e “evitáveis” no Brasil e no mundo.
Em 2024, no Brasil, por exemplo mais de 340 mil pessoas foram hospitalizadas em decorrência de problemas relacionados `a falta de saneamento, a falta de água tratada causando um impacto significativo na saúde pública e também para o orçamento das famílias.
Tanto em relação ao desmatamento quanto ‘as queimadas, a destruição das nascentes’, a erosão, considerando o ritmo atual da implementação de políticas públicas nesta área o Brasil ainda vai precisar de várias décadas para ostentar índices compatíveis com os cuidados necessários, fruto inclusive de acordos internacionais firmados pelo nosso país, como no Acordo de Parias.
Em relação às questões da água e do saneamento básico a situação também não é nada animadora, alguns estudos indicam que se apenas os atuais níveis de investimento nessas áreas foram mantidos como atualmente acontece, ainda levaremos pelo menos mais 3 ou 4 décadas para universalizar o acesso `a água tratada e ao saneamento básico. Até lá centenas de milhares de pessoas, principalmente crianças e idosos vão morrer de causas plenamente evitáveis, ou seja, mortes prematuras que poderiam ser eliminadas em nosso país e também ao redor do mundo.
Concluindo, quem mais sofre com o desmatamento, com as queimadas, com a degradação socioambiental, com a falta de acesso ao saneamento básico e à água potável/tratada e com os “desastres” ecológicos são os pobres, excluídos, oprimidos e injustiçados, com sempre enfatizou o Papa Francisco e também tem enfatizado o Papa Leão XIV, quando afirmam que “o clamor/grito da terra é também o clamor dos pobres e excluídos”.
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*Juacy da Silva, professor fundador, titular e aposentado Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em sociologia, ambientalista, ativista social, articulador da Pastoral da Ecologia Integral Região Centro Oeste. Email profjuacy@yahoo.com.br Instagram @profjuacy Whatsapp 65 9 9272 0052

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